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No banho

No Banho...

A gente costuma pensar tantas coisas quando está tomando banho... 
Quando ele é curto e rápido, os pensamentos também se apressam, e logo se secam. Mas se é longo e demorado... hummm! Quantos pensamentos.
Talvez isso não seja politicamente correto. Banho assim não se deve, não pode! Mas, sempre se quer, e quando pode, deve ser muito bom, sem nada dever.

Aí, dá-lhe pensamentos! Coisas & coisas.
Lembranças, boas e ruins. Ideias, boas e ruins. Bobagens, boas e ruins.
Até canções arriscamos cantar, erradas ou certas, afinadamente desafinando. Por vezes até compomos uma, ou mudamos tanto a letra e o tom de alguma, que fica parecendo ser outra.

Mas, o melhor mesmo é quando conseguimos trazer essas filosofias que nascem no banho, abstratas e aparentemente absurdas, num plano mais concreto.

Partindo disso, num desses banhos filosóficos, dia desses, fiquei observando o rótulo do shampoo que eu estava usando. Um rótulo bonito, atraente como os cabelos que a gente pensa que terá depois de usá-lo. Lá também estava escrito um montão de coisas assim:

Vita-Max (não sei o que é isso).

Shampoo vitalidade, multivitaminas E+ PP+ B5 (assusta um pouco, será algo pra comer?)

Força, vitalidade e brilho (autoajuda pra levantar a autoestima sua e a do cabelo).

E, lá no final do rótulo, algo que dá certa tranquilidade:

CABELOS NORMAIS

Ah! Cabelos normais... Bons tempos aqueles em que você e os cabelos eram simples, que você era e podia ser apenas normal.
Crespo, liso ou liso crespo, loiro, preto ou preto loiro, longo ou curto, tudo isso era normal.
O maior preciosismo que se tinha era dividir os cabelos em três tipos: os secos, os oleosos e os normais.
Mas a gente sempre acertava quando usava o “normal”. Não sabíamos ao certo qual era o nosso tipo de cabelo, porque muitas vezes ele oscilava nas categorias.
Quando, por exemplo, o cabelo ía à praia e tomava um banho de mar, ele ficava na condição e momento  “seco”, mesmo molhado.
Já, quando você passava uns dias sem lavar os cabelos, eles naturalmente se transformavam na condição e momento “oleoso”.
Lembro que quando a gente ficava doente, principalmente se tinha febre, a gente não podia lavar os cabelos. Não sei se isso é mesmo necessário, mas a gente obedecia ao que mandavam, principalmente quando era a mãe e o pai.
Aí se colocava um pouco de talco pra que ficassem menos oleosos.

Não dava muito certo, era meio horroroso. Lembram disso?

Mas tudo isso era normal, tão normal quanto os cabelos normais.
Mesmo sendo uma condição momentânea ou não, o cabelo era apenas cabelo, cada um do seu jeito normal de ser.

Hoje, vejo que não é mais assim. Tudo é muito simples pra ser mais complicado.

Tantos tipos de cabelos rotulados e tantos outros tipos de rótulos e padrões para nos encaixarmos, que nos levam quase à loucura de não nos acharmos “normais”.

Os rótulos estão em tudo e em todos, mesmo que você não os queira.
Eles classificam, diferem, separam, denominam, enaltecem, envaidecem, discriminam, atraem, enganam e muitas outras coisas, tanto para o bem quanto para o mal.

Temos todos inúmeros e variados rótulos.
Somos também divididos em “tipos”, com funções, qualidades e propriedades diferentes até na igualdade, assim como se diferem os shampoos, os cremes dentais, os cafés, os açúcares e tantos outros mais.
Somos classificados em quase tudo nesse mundo e levamos os rótulos por conta disso.
Estamos divididos pelos rótulos sociais e raciais, pelas crenças e religiões, pelas novas velhas doenças e muitas outras coisas que enchem vastas e diferentes prateleiras.

Nem sempre conseguimos descomplicar ou entender o que dizem os rótulos, principalmente os nossos.
O que podemos fazer é sintetizá-los e simplificar a vida.

Leia o que for mais importante. Afinal, isso é normal!

Pronto. Acabei meu banho e lavei o cabelo com shampoo “normal” e seus muitos trelelês.

Estou mais leve e pensando ainda uma coisinha sobre tudo isso:

SERÁ QUE UM BANHO DESSES É NORMAL?


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