Naninhando
Nesses dias encontramos uma nova paixão: um ninho.
De repente, assim como acontecem as paixões, vimos uma forma estranha sobre uma árvore que fica em frente a janela da nossa sala.
A princípio não entendemos muito o que aquele volume de pequenos galhos, entre outras coisas que se misturavam a eles, poderia ser.
O objeto estranho estava bem exposto sobre os galhos de uma árvore perdendo as folhas.
Talvez por isso, inicialmente, não achamos que a elaborada arquitetura poderia ser um ninho.
Mas tivemos a confirmação quando, de repente, sobre ele, pousou um sabiá, ou melhor, uma sabiá.
Ela se aconchegou, bem quietinha, e lá permaneceu.
Nesse instante percebemos que poderia estar chocando os ovinhos, ou então protegendo os seus filhotes.
Então, a partir disso, começaram nossos momentos de prazer, aqueles que vêm das paixões.
Tivemos a ousadia de chamá-lo de nosso, nos apossando da posse que muitas vezes vem das paixões.
Todos os dias ficamos observando os movimentos em torno desse ninho e também nos sentindo protetores dessa fragilidade diante das hostilidades que estariam vulneráveis.
Todos os dias, vimos a incansável passarinha, ora sobre o ninho, ora voando na busca de alimentos, que trazia no bico para os filhotes que ainda não conseguíamos ver.
O vai e vem incansável era um espetáculo para nossos olhos atentos. Tão atentos, que num de repente, vimos bicos entreabertos famintos recebendo coisinhas deliciosas que nos deliciamos vendo a todo momento.
Ela também nos alimentava.
Aninhados nessa admiração, o tempo quase parou.
Sentimos o divino nos fazendo naninhar como crianças sob sua proteção.
Aproveitamos e contemplamos todas as oportunidades, presentes neste nosso presente.
Esses pequenos geraram tantas grandes coisas. Sentimos sentimentos já apreendidos ensinando novos aprendizados, nos renovando.
Tanta ternura na seriedade de cada gesto.
Vimos a vida surgindo entre penugens emplumadas pela persistência e resistência
do materno paternal, que protege e nutre incansavelmente.
Vimos tanta riqueza, tesouros de simplicidade no complexo tão elaborado da natureza.
Vimos reluzir feito ouro, todas as lindas bênçãos emaranhadas nesse emaranhado, pousando em nossos olhares.
Percebemos que a cada momento nosso ninho seria breve, assim como as paixões.
Sorrimos… choramos.
Nesse exílio de encantos, cantou a sabiá, compondo poesias nas sombras de galhos secos.
Ave! Seus encantos reescreveram versos de saudades sem distâncias, de canção com melodia suave que transborda nostalgia e esperança.
E nesses entantos, os pequenos passarinhos, já batendo suas asinhas sob o olhar cuidadoso da mãe, aos poucos se despedem do ninho e de nós.
Neles vimos os sentimentos vívidos e vividos da criação criada, querendo alçar seus voos e construir seus ninhos.
Vimos uma enorme paciência, pacientes.
Com ela, passarinha de coraçãozinho repleto e apertado, misto de contentamento e saudades, aprendemos lindas lições. Sentimos juntos o sentido de tantos aprendizados, aprendendo sobre voos e ninhos vazios.
Disso tudo guardaremos os dias e noites que ficamos dentro e fora desse ninho, abrindo as janelas dos olhos, aninhados na beleza desse instante quase infinito.


Maravilhoso! Seu olhar sempre atento aos caprichos de Deus 🤗Parabéns ❤️
ResponderExcluirÉrica, que texto lindo!
ResponderExcluirAtravés do seu poema
e das lindas fotos,senti
a emoção que esse milagre da natureza trouxe para você e o Fábio!
Parabéns!!!
Que olhar de encantamento ! Belíssimo texto ! Um afago diante de tantas visões de destruição da natureza! A vida que se renova !
ResponderExcluirMaravilhosa sua sensibilidade para perceber a resistência da natureza 💚
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