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Mãemórias

Mãemórias Nos tantos dias de memórias fiquei recentemente relembrando alguns dos diversos talentos de minha mãe e avó. Dentre vários, o crochê era um deles. Lembrei que, entre os muitos trabalhos, fizeram bolsinhas de crochê pra mim. A da minha vó, ganhei quando tinha uns 8 anos.  Foi a primeira vez que vi uma bolsinha assim. Fiquei fascinada! Era verde e laranja, com desenhos geométricos e pontos variados que formavam um saquinho vertical e se fechava com um cordão cujas pontas tinham pingentinhos de franjas. Percebi nesse presente que era possível criar, produzir e realizar coisas a partir dos nossos talentos.  Percebi o quanto era habilidosa essa avó, e o quanto desse dom herdaram minha mãe e também tias e primas. Talvez isso tenha sido uma das primeiras inspirações no meu querer e fazer de tantas artesanias.  A bolsinha da minha mãe foi um pedido meu. Queria ter uma peça assim feita por ela.  Essa eu ainda tenho e guardo com carinho. A da vovó, só ten...

Carnavaneando

Carnavaneando O carnaval é um tempo que me remete às melhores lembranças. Sempre gostei desse tempo, desde o tempo em que havia tanto tempo para esse tempo. Talvez tenha aprendido a gostar desse evento por influência do meu pai. Ele adorava o carnaval. Se dispunha sempre alegre, sendo festa, um folião disposto a permanecer nas folias que comumente vivia no dia a dia. Não usava máscaras, nunca precisou delas. Sua cara foi sempre limpa e pintada de riso e alegria. Trazia sempre mais de mil palhaços nos salões de nossas vidas. A tristeza ficava por conta do Arlequim, da Colombina e da Jardineira. Mesmo chorando e caindo de tantos galhos, nunca se abateu. Suas fantasias eram originais, vestidas do luxo do imaginário. Pintava com tinta guache nossas faces angelicais desenhando nelas suas impressões infantis. Eram carinhas transformadas em índios, palhaços, testa e bochechas mascaradas com coraçõezinhos e delicadas florzinhas. Ficávamos a lindeza que ele desejava. Se derretia, com...

Leite derramado

Leite derramado... Dentre tantas mazelas e surpresas do cotidiano, essa é uma que faz parte de tantos momentos. No fogão, no chão, na mesa, tantas vezes nos deparamos com isso. Desafio e aprendizado? Romance de Chico Buarque? Sem romancear, isso acontece de forma inusitada, de um jeito que surpreende. Encontrar a caixa de leite, guardada no armário, derramando seu conteúdo como uma cascata branca, formando um lago esbranquiçado no meio da cozinha é algo bem apropriado para uma manhã que parece não ter amanhecido. Complemento bom para o café não tomado. Mesa posta no chão, repleta de delícias que animam o mau humor. O desenho dessa paisagem nos desperta dos sonhos bons que não tivemos na noite mal dormida. Acho que nessa visão cabe a expressão bíblica "jorrar leite e mel", profetizando abundância e riqueza. Seria então uma forma de bom agouro? Ou simplesmente uma lambança nada doce com a chata e pobre realidade da limpeza por fazer? Muitos panos, bacia, água, papel...

Tempo de...

Natal... Tempo de renovar Tempo de fazer, refazendo Tempo de encontrarmos encontros, memórias Tempo de presentes, presente em lembranças Tempo de lembrancinhas Tempo de ser lembrado, de esquecidos Tempo de grandes riquezas pequenas Tempo de acender, ascender Tempo novo, novo tempo Tempo de ter tempo, no tempo Tempo de ser e estar Tempo feliz, de Natal Tempo de acrescentar e crescer nas delicadezas e mimos que só esse tempo tem.       Os presépios foram feitos por mim com material reciclável

Dias de sempre...infância

Para eternizá-la ilustro com versos do poema de Casimiro de Abreu, "meus oito anos". Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras A sombra das bananeiras Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias Do despontar da existência! Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é lago sereno, O céu um manto azulado, O mundo um sonho dourado, A vida um hino de amor! Que auroras, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar!  O céu bordado d’estrelas, A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar! Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã. Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de...

Thérèse

Teresinha… Chamar-te de querida, amiga e irmã me faz crer tão próxima. Com essa liberdade posso te abraçar com o coração, vê-la nas flores e te sentir nas coisas belas. Em todos os momentos me asseguro como são difíceis as grandes pequenas coisas.  Dentro das insistências, entre erros e acertos, tento te aprender. Muitas vezes, minhas imperfeições, misérias e fraquezas não compreendem tua força. O pequeno caminho fica distante e longo demais, a ponto de querer desistir. Mesmo assim, apreendo o que posso em minha alma. Neste e entre tantos outros momentos, posso sentir tua presença, apontando direções, desenhando a esperança renovando as cores, os amores. Tua imagem imprime em mim a beleza, a fé e a gratidão. Tua presença iluminada me faz seguir nos escuros, buscando o brilho que transforma dores em flores. Tua existência é resistência no amor. Permanecer em você é existir num mundo melhor, feito da pequenez de grandezas imensuráveis, com importâncias verdadeiramente val...

Setembrando

Setembrando Lembro dos dias de independências tão dependentes.  Tempo de outras eras.  Era dos tempos de escola primária, entre as décadas de 60 e 70. Era do tempo de dias de desfiles, de uniformes, de inconformes. Eram anos de chumbo, da ditadura militar, das ditaduras todas encobertas por uma nuvem de repressão, tabus e preconceitos. Isso se refletia e influenciava em tudo, no nosso cotidiano, na nossa família, em todos os lugares. Sentia, nesses tempos sombrios, uma estranha alegria ingênua por conta das delícias genuínas da infância que se fundiam com um peso do que eu desconhecia. Talvez fosse o sabor do mistério, das portas e bocas fechadas. Mas onde mais sentia os reflexos desse tempo, sem consciência nenhuma do que se passava por conta da minha inocência, foi nas vivências e experiências na escola. Dentre as muitas memórias escolares lembro que o uso do uniforme era obrigatório. Além disso, tinha que ser impecável, conforme as exigências e a rigidez vindas ...