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Leite derramado

Leite derramado... Dentre tantas mazelas e surpresas do cotidiano, essa é uma que faz parte de tantos momentos. No fogão, no chão, na mesa, tantas vezes nos deparamos com isso. Desafio e aprendizado? Romance de Chico Buarque? Sem romancear, isso acontece de forma inusitada, de um jeito que surpreende. Encontrar a caixa de leite, guardada no armário, derramando seu conteúdo como uma cascata branca, formando um lago esbranquiçado no meio da cozinha é algo bem apropriado para uma manhã que parece não ter amanhecido. Complemento bom para o café não tomado. Mesa posta no chão, repleta de delícias que animam o mau humor. O desenho dessa paisagem nos desperta dos sonhos bons que não tivemos na noite mal dormida. Acho que nessa visão cabe a expressão bíblica "jorrar leite e mel", profetizando abundância e riqueza. Seria então uma forma de bom agouro? Ou simplesmente uma lambança nada doce com a chata e pobre realidade da limpeza por fazer? Muitos panos, bacia, água, papel...

Tempo de...

Natal... Tempo de renovar Tempo de fazer, refazendo Tempo de encontrarmos encontros, memórias Tempo de presentes, presente em lembranças Tempo de lembrancinhas Tempo de ser lembrado, de esquecidos Tempo de grandes riquezas pequenas Tempo de acender, ascender Tempo novo, novo tempo Tempo de ter tempo, no tempo Tempo de ser e estar Tempo feliz, de Natal Tempo de acrescentar e crescer nas delicadezas e mimos que só esse tempo tem.       Os presépios foram feitos por mim com material reciclável

Dias de sempre...infância

Para eternizá-la ilustro com versos do poema de Casimiro de Abreu, "meus oito anos". Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras A sombra das bananeiras Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias Do despontar da existência! Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é lago sereno, O céu um manto azulado, O mundo um sonho dourado, A vida um hino de amor! Que auroras, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar!  O céu bordado d’estrelas, A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar! Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã. Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de...

Thérèse

Teresinha… Chamar-te de querida, amiga e irmã me faz crer tão próxima. Com essa liberdade posso te abraçar com o coração, vê-la nas flores e te sentir nas coisas belas. Em todos os momentos me asseguro como são difíceis as grandes pequenas coisas.  Dentro das insistências, entre erros e acertos, tento te aprender. Muitas vezes, minhas imperfeições, misérias e fraquezas não compreendem tua força. O pequeno caminho fica distante e longo demais, a ponto de querer desistir. Mesmo assim, apreendo o que posso em minha alma. Neste e entre tantos outros momentos, posso sentir tua presença, apontando direções, desenhando a esperança renovando as cores, os amores. Tua imagem imprime em mim a beleza, a fé e a gratidão. Tua presença iluminada me faz seguir nos escuros, buscando o brilho que transforma dores em flores. Tua existência é resistência no amor. Permanecer em você é existir num mundo melhor, feito da pequenez de grandezas imensuráveis, com importâncias verdadeiramente val...

Setembrando

Setembrando Lembro dos dias de independências tão dependentes.  Tempo de outras eras.  Era dos tempos de escola primária, entre as décadas de 60 e 70. Era do tempo de dias de desfiles, de uniformes, de inconformes. Eram anos de chumbo, da ditadura militar, das ditaduras todas encobertas por uma nuvem de repressão, tabus e preconceitos. Isso se refletia e influenciava em tudo, no nosso cotidiano, na nossa família, em todos os lugares. Sentia, nesses tempos sombrios, uma estranha alegria ingênua por conta das delícias genuínas da infância que se fundiam com um peso do que eu desconhecia. Talvez fosse o sabor do mistério, das portas e bocas fechadas. Mas onde mais sentia os reflexos desse tempo, sem consciência nenhuma do que se passava por conta da minha inocência, foi nas vivências e experiências na escola. Dentre as muitas memórias escolares lembro que o uso do uniforme era obrigatório. Além disso, tinha que ser impecável, conforme as exigências e a rigidez vindas ...

CRÔNIcafé

CRÔNIcafé Sabe aqueles dias que você acha que será um dia daqueles? Todo mundo conhece isso. Geralmente tudo acontece logo quando você acorda. Mesmo arriscando colocar primeiro o pé esquerdo fora da cama, você acha que tá tudo bem mais ou menos e segue em frente. Toda dolorida, de uma noite mal dormida, você espreguiça, calça os chinelos, vai ao banheiro fazer as coisinhas que precisa e depois pra cozinha. Ainda sonolenta você "pensa" que vai tomar um cafezinho bem adoçadinho, buscando nesse momento aquela fezinha do bem, de todo dia, pra todo dia ser melhor.  Aí, uma surpresa nada doce.  Uma cena bem estranha… A cozinha toda cheia, ou melhor, "cheíssima" de cacos de vidro, muitos cacos e caquinhos, no chão, pia, fogão, tudo. Uma "cacolândia": um parque de pura diversão, de graça e muito sem graça. E o que seria isso? Um terremoto que quebrou os vidros? Coisas da pandemia? Ou um pandemônio? Ou será que todos os copos resolveram fugir do isolamen...

Dia de Santo

Hoje, dia de Santo Antônio. Santo querido, há tanto tempo na família. Mesmo que ao acaso, sua imagem sempre esteve presente abençoando a minha casa. Tantas lembranças, tantas histórias... Desde criança te admiro, ora como santo, ora na minha imaginação infantil (nem tanto). Te olhava - com um pouquinho de medo - sobre a cômoda alta, altar improvisado, em toda a sua altura, modelada no gesso. Talvez pela aparência, que eu não entendia. Sua imagem grande fazia sombras enormes e crescia no escuro do quarto. Isso acontecia quando via aqueles antigos "filmes de vampiro" pois achava semelhanças nas vestes. Hoje sei o quanto posso te admirar, sem medo.  Muito além das simpatias, das aparências, sei que é preciso entender a sua verdadeira importância, os seus ensinamentos, a sua riqueza espiritual nos fazendo ver e acolher os pobres e desfavorecidos. Nesse seu dia meu pai e minha mãe sempre seguiam a tradição de buscar os pães abençoados, trazendo-os com alegria para casa...